by Antônio Carlos Kantuta

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011



 É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, 

é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade
(1923-2005) 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Verão


 

Revoada

Cabeleiras

Cambalache

Andarilha

Na trilha do sol.

 

Verão, Chacal.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

sábado, 5 de fevereiro de 2011

  
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Apesar do puro amor que a ti lavro
Em notas frias pela madrugada
Apesar do poema que se esparrama
Colérico sobre meu corpo-livro
Apesar de Ray Charles compondo
Doces memórias em nossas avenidas...
Apesar das marinas, dos mares,
Apesar da camisa de Vênus
E dos anéis de Saturno...
Não posso contratar teu beijo
Nem alugar teu sorriso raro, e caro,
Numa tarde de nuvens e chuva
Pois por não ter carro e dinheiro,
Não tenho caráter.

Nem mesmo rosas, nem batutas
Nem anéis de Saturno, nem cantutas,
Nada financia teu amor monetário
Colorido em códigos de barras nas
Vitrines e classificados da cidade.
Penso partir no próximo verão,
Penso esquecer teus sinais, mera ilusão.
Lembro logo que em Pasárgada
Também sou andarilho, sou marginal.
Lá também minhas composições
Decompõem-se na mesma chuva de
Desejos que te deixa molhada e
Que afoga meus poemas na perdição.


Antônio Carlos Kantuta.

Cadência Mimosa...


A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre...

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita...
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A Bunda, que Engraçada!, Carlos Drummond de Andrade.

Chacal: Rápido e Rasteiro


Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.

Rápido e Rasteiro, Chacal.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011














Lifelines

Linhas vivas, bonitas.
Linhas coloridas
Traçadas pela luz frenética.

Coisas vivas, bonitas.
Coisas coloridas
Criadas pela luz frenética.

Linha torta, vida.
Coisa efêmera que se
Infinita na constelação
Dos dias.


Antônio Carlos Kantuta

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Lusa baianidade nagô...

A seguir, uma deliciosa viagem pelas águas lusas e profusas de Fernando Pessoa na extasiante voz de Daniela Mercury - É de tirar o fôlego!




Poema Os Colombos de Fernando Pessoa:

OUTROS haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a elles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz d'elle história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

Fernando Pessoa, in Mensagem.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Nádegas A Declarar!







Ordem e progresso
Sua bunda é um sucesso
Nádegas a declarar!
Nádegas a declarar!
Ordem e progresso
Sua bunda é um sucesso
Nádegas a declarar!

Nádegas a declarar?
Claro que não!
Eu tenho opinião
Nesse papo de bundão
E vou dizer
Mas primeiro você
Fernanda!
Primeiro as damas
O quê que cê manda?

Aí, Gabriel!
Vou logo deixar claro
Não é lição de moral
Todo mundo tá sabendo
Que sambar é tropical
No país do futebol e carnaval
Mexer essa bundinha
Até que é natural
No meu ponto de vista
Sem querer ser feminista
A bundalização
É bastante estimulada
Por essa cultura machista
Cê sabe! Tá cheio
De porco-chauvinista
Por isso que esse papo
Não é só pras menininhas
É prá todos esses caras
Que dão força que dão linha
No concurso
Na promessa de um futuro
No programa de TV
E no rádio
Toda hora prá você!

A-aha! Arrebita a rabeta!
A-aha! E me diz, meu bem
O que mais que você tem?
A-aha! Arrebita a rabeta!

Arrebita bem a bunda
Vagabunda!
Que a bunda é tudo de bom
Que você tem
O quê que você tem de bom
Além do bumbum?
Um talento, algum, dom?
Ou as suas qualidades
Estão limitadas ao balanço
Dessa bunda arrebitada?
O quê que você tem
Além da bunda?
Pense bem
Que a pergunta é profunda
Não, não é isso, menina!
Eu não tô falando
Da sua virilha
Que deve ser uma maravilha
Mas seu cérebro é menor
Do que um caroço de ervilha!

Ô minha filha!
Acorda prá vida
A sua bunda tá em cima
Mas sua moral tá caída
A dignidade tá em baixa
Você só rebola, só rebola
Só rebola e se rebaixa
E se encaixa no velho perfil:
Mulher objeto
Em pleno ano dois mil
E um, e dois, e três
Sempre tem alguém
Prá ser a bunda da vez
Te chamam de celebridade
E você acredita
Enche o rabo de vaidade
E arrebita!

A-aha! Arrebita a rabeta!
A-aha! E me diz, meu bem
O que mais que você tem?
A-aha! Arrebita a rabeta!

Arrebita bem a bunda
Vagabunda!
Que a bunda é tudo de bom
Que você tem
Você tira até retrato
Três por quatro de costas
Pensa com a bunda
E quando abre a boca
Só sai bosta
Talvez você nem seja
Tão piranha
Mas qualquer concurso
Miss bumbum que tem
Você se assanha
A-aha! E tira foto
Fazendo pose
De garupa de moto
A-aha! Vai sair na revista
E o povo vai dizer
Que você é artista
Porque agora bunda é arte
É cultura, é esporte
É até filosofia
Quase uma religião
E se você tiver sorte
Pode ser seu passaporte
Para fama (ou prá cama)
Pode ser seu ganha-pão
Bunda conhecida
Bunda milionária
Bonitinha mas ordinária
Que nem otária na TV
De perna aberta
Queima o filme das mulheres
E se acha muito esperta
Vai, vai lá!
Vai entrar na dança
Vai usar a poupança
Vai ficar orgulhosa
Sem saber o mau exemplo
Que tá dando pras crianças
Adolescentes, adultas
E adultos retardados
Que idolatram
Um simples rebolado
Bando de bundão!
Aplaudindo a atração
Não pelas idéias
Mas pelo burrão!

A-aha! Arrebita a rabeta!
A-aha! E me diz, meu bem
O que mais que você tem?
A-aha! Arrebita a rabeta!

Arrebita bem a bunda
Vagabunda!
Que a bunda é tudo de bom
Que você tem!

-Ordem e progresso
Sua bunda é um sucesso
-Ai, nádegas a declarar!

Lombo ambulante
Burrão ignorante!
Sua bunda é alucinante
A rabeta arrebenta
Mas beleza não é tudo
Além da forma
Tem que ter conteúdo
Senão você
Se torna descartável
Que nem uma boneca inflável
Então encare a realidade
Com seu olho da frente
E veja a vida
De uma forma diferente
Porque uma mulher decente
Pode ser muito mais atraente
Que uma bunda sorridente
Então, garota sangue bom
Se liga na missão
Se liga nesse toque
Ser ou não ser
Eis a questão!
A vida é bem mais
Que um número no Ibope
Deixe a sua mente
Bem ligada
Ou vai ficar injuriada
Reclamando
Que não é valorizada
Pára prá pensar
Bota a bunda no lugar
E a cabeça prá funcionar!

A-aha! Arrebita a rabeta!
A-aha! E me diz, meu bem
O que mais que você tem?
A-aha! Arrebita a rabeta!

Arrebita bem a bunda
Vagabunda!
Que a bunda é tudo de bom
Que você tem
Solta essa bundinha
Solta o verso
Solta a rima minha filha
Solta o verbo
Na cara do Brasil
Que atrás de você
Virão mais de mil!

Eu também não sou chegado
Em celulite
Mas eu vou te dar um palpite
Exercite a tua mente
E não se irrite
Se eu tô sendo muito franco
Mas atualmente
Ela só pega no tranco
Amanhã
Você vai olhar prá trás
E vai ver que o seu colã
Já não entra mais
Vai querer fazer uma lipo
Vai querer meter silico
E vai continuar
Pagando mico! Ah!

A-aha! Arrebita a rabeta!
A-aha! E me diz, meu bem
O que mais que você tem?
A-aha! Arrebita a rabeta!

Arrebita bem a bunda
Vagabunda!
Que a bunda é tudo de bom
Que você tem!

Ordem e progresso
Sua bunda é um sucesso
Nádegas a declarar!
Nádegas a declarar!
Ordem e progresso
Sua bunda é um sucesso
Nádegas a declarar!...


Música "Nádegas a declarar", com Fernanda Abreu e Gabriel O Pensador
Disco Raridades (Fernanda Abreu). 

sábado, 22 de janeiro de 2011

Arabescos e Florais












Quando da invenção da alma
Arquitetei-me charco e lama
A penetrar aranhiço a orla
Das sombras e a penumbra dos sóis.

Quando da composição do dia
Narcisei-me breu no espelho da noite
E sucumbi alvoradas no
Oitão ocre da cordilheira voraz.

Quando da invenção da roda veloz
Solapando o arco do tempo absoluto
Pintei-me lento em folha obsoleta
E dormi poeta no livro da morte.

Quando do aborto das fábricas
No leito enferrujado da vila industrial
Revelei-me insulto aos parafusos
E compus fios de arabescos e florais.


Antônio Carlos Kantuta


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011





Conte-me mais do teu dia
Quero saber de teus sonhos,
Notícias da alma tua.

Quero saber de tuas pernas
Em andanças livres a fruir
O agradável sabor do vento.

Conte-me do caminho teu,
Da ardente luxúria que te percorre
A carne espoliando a decência.

Embarace meus códigos frugais
Na fragrância mística de teu suor
Em rituais de sultano encantamento.

Antônio Carlos Kantuta.