by Antônio Carlos Kantuta

domingo, 17 de julho de 2011

O Baile do Cisne



O mais interessante
em consumir essa cultura
que tudo de mim consome
é justamente o gosto sequioso
do consumo antropofágico,
do fazer e fazer parte das telas,
dos sinos e alaridos da multidão.
Achar-me em literaturas universais,
leigo entre horas e catedrais,
Itália, Tropicália, Canibália
canções ao violão, nouvelle vague
e o museu frio no cartão postal.
Mundo de códigos ocultos,
Para quê nos ensinar?
Amálgama de todos nós      
dançando fora e dentro dos Lidos,
na violência anedótica dos livros...
Fotografias com sede e saudade
de Montmartre e do St. Stephens Green.
Viver a vida, viver o mundo,
subir e dormir nas escadas do Carmo,
deixar os lugares para trás,
encontrar Aristóteles nos espaços,
abrir o novo livro, o velho,
ouvir a voz de quem já partiu
e que jaz no jazz em nós
- salada aromática no baile do cisne.
Campos gravitacionais, de algodão,
campo magnético, de batalha,
campo harmônico de odes e trovas
engolindo o abismo que
separa as notas da flauta
rimando o mágico e o trágico.
No compasso da valsa vital
ver o desvelar do ciclo arcano
nos vapores de Pítia.
E o baile seguirá no ritmo da vida,
no instável pulsar cardíaco,
na respiração do mundo derramado
no lume do céu e na alma do mar.

Antônio Carlos Kantuta
Fotografia de Kendall Eutemey

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Download Filme - Atonement (Desejo e Reparação) - Legendado


Atonement: Desejo e Reparação (Joe Wright/2007) é uma adaptação cinematográfica do livro homônimo do escritor britânico Ian McEwan, estrelado por Keira Knightley e James McAvoy. 
Sinopse:
Briony Tallis é uma menina de 13 anos na Inglaterra de 1935 que vive confortavelmente numa casa gigantesca e prepara uma peça de teatro para apresentar em homenagem a chegada do irmão, Leon Tallis. Enquanto se esforça para terminar a peça e obter a atenção dos convidados da família, Briony descobre um possível jogo de atração entre a sua irmã Cecília e o filho do antigo empregado da família, Robbie Turner. Apaixonada por Robbie, Briony acusa-o injustamente de abusar de Lola, levando-o a prisão e mais tarde a alistar-se no exército britânico para lutar na 2ª Guerra Mundial como alternativa ao cárcere. Já em plena guerra Robbie reencontra Cecilia que é enfermeira e os dois trocam promessas de amor eterno. As constantes permutas temporais, uma grande trilha sonora aliada ao grande roteiro e o fim inesperado fizeram de Atonement o vencedor do globo de ouro para melhor filme dramático de 2008.
Fazer download do Filme no Megaupload
ou acesse o site Kantuta Filmes e Downloads

Maria Bonita...


Maria Bonita
"Cabrocha pra sê bunita
Bunita como os amô
Basta um vistido de chita
si chamá Maria Bonita
E na cabeça uma frô".

De Virgulino Lampião para sua Maria Bonita.
Artificialmente limpa pelo processo Olivetti de tecladismo estéril, a MPB ultimamente não tem correspondido à violência do país que a produz. Pelo menos a MPB letra O, emanada da burocracia do show-bizz e do oficialismo político do bom humor a preço de hiena. Fernando Pellon vai chocar essa hipocrisia generalizada vendida com rótulo de bom gosto e status. "Nunca gostei de eufemismo", vai logo cantando ele. E dá nome às doenças, como fazia Augusto dos Anjos, com um requinte de morbidez que aida perde, no entanto, para crueldade exibida diariamente por nossas autoridades mais altas. Quem quiser se assuste com Pellon, que também recobra tradições estabelecidas por arautos das campas tão divergentes quanto Nelson Cavaquinho e Vicente Celestino. Para isso.basta ouvir "Flores de Plástico ao Amanhecer". Já o nosso recente Aldir Blanc também poderia ter assinado algo tão flagrante como "Carne no Jantar". E por aí afora, só para que não se pense que Fernando Pellon é um estranho no ninho, ou alienista fugaz. Melhor que situar tão precocemente sua obra é ouvi-la, com ouvidos desarmados de preconceitos. O poeta vale a pena, o violão, os convidados e os arranjos de João de Aquino e Paulinho Lêmos.
Tárik de Souza



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quero Cores




Quero cores.
Quero o cinza trivial das nuvens e
o testamento avermelhado do angelim.
Quero a duração branco azulada
da fermata e a indiferença da pedra.
Quero Cabíria preto e branco,
Barcelona tecnicolor escarlate
e Tóquio numa paleta digital de 64 bits.
Quero mais cores.
Tragam-nas vivas ou mortas
 encardidas ou desbotadas.
Quero chupar a cajuada colorida do cajueiro
e Maria Cabrocha que é a flor do cambará.
Vou misturar aurora com crepúsculo
e Mouline Rouge com Amerelo Manga
só pra ver no que é que dá.
Quero o terra-cota, a vinheta dos lírios
e o arco-celeste na escala musical.
Quero mais.
Quero tocá-las, comê-las, dormir
e acordar com todas elas.
Quero bebê-las de uma só golada
e desfalecer no limbo caótico da luz.
Quero a pele das borboletas
e o fulgor diamantino dos cristais.
Quero as cores do mundo.

Antônio Carlos Kantuta

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Natureza Fashion Parade!








Tecnologia e Dinheiro

Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, - então, justamente então – reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como... Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo... O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas.

Heidegger

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sorriso...

Charles Chaplin - Smile

Doce Esperança

Ouça Cantando...
Estou aqui pra viver
À procura de amor
Por onde for
Ouvindo ora yê yê
Quero pertencer
A uma filha D`Oxum
Olorum, me diz o que fazer
Pra encontrar esse amor
Que seja doce prazer
Que cheire a jasmim
Ou a macaçá
Que cace em mim meu querer
Com a mesma constância
Das ondas do mar.

Olorum, eu sempre vou crer
Que vou encontrar...
Uma gueixa formosa
Loura cor de rosa
Ou uma preta quase azul
Que goste de Itapuã
E vai se arrepiar
Nas festas do Gantois...
Olorum, como é bom saber
Que vai me ajudar
Vou aguardar oh Olorum
Numa noite de luar
Rival de Iansã
Paixão de Xangô, ó minha filha D`Oxum 
Ora yê yê ô...

Doce Esperança, Daniela Mercury (Swing da Cor, 1991).
Composição de Roberto Mendes e J. Velloso.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Haia Lispector...



E depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada em desespero – eis que às três da madrugada eu acordei e me encontrei. Simplesmente isso: Eu me encontrei calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente isso, eu sou eu. E você é você. É lindo, é vasto, vai durar. Eu já sei mais ou menos o que vou fazer em seguida. Mas por enquanto olha para mim e me ama. Não. Tu olhas pra ti e te amas. É o que está certo.
Clarice Lispector, in Água Viva.
Texto 9,  álbum Rosa dos Ventos Ao Vivo (1971), Maria Bethânia.


Florice



Num outono recente
enquanto eu voava alegre
com os anjos da noite
pelo silêncio do céu escuro
e vergava festivo qual
palha de licuri ao sopro
do vento agreste,
Florice surgiu do pélago e
me levou de volta
para aquela noite em que
ficamos nas pedras
do riacho perto da capela.
O que restou daquela noite
em que ficamos nas pedras
do riacho perto da capela,
além da lembrança das pedras
do riacho perto da capela,
foi o sorriso de Florice.
Seu vestido colado ao
corpo e seu olhar apaixonado
compunham a paisagem do sorriso.
Hoje ela não cabe mais
na arca de meus sonhos.
É apenas uma lembrança
de minha adolescência
que há muito partira
para nunca mais voltar.
Adeus Florice!

Antônio Carlos Kantuta

Mar Adentro


Mar adentro, mar adentro 
e na falta de gravidade
Nesse fundo onde se realizam sonhos
se juntam duas vontades 
para realizar um desejo. 

Seu olhar e meu olhar 
como um eco se repetindo, sem palavras: 
mais adentro, mais adentro, 
até mais além de todo o rosto 
pelo sangue e pelos ossos.

Mas me desperto sempre 
e sempre quero estar morto 
para seguir com minha boca 
enredada em seus cabelos.

Mar Adentro é um dos poemas do livro Cartas do Inferno de Ramón Sampedro (Editora Planeta/2005). Ramón Sampedro era um espanhol que aos 26 anos sofreu um acidente ficando tetraplégico.  A partir de então, ele passou a brigar com os tribunais espanhóis para obter o direito à eutanásia ativa voluntária. Como a justiça não lhe concedeu o pedido, Ramón cometeu suicídio em janeiro de 1998 com a ingestão de cianureto de potássio, tendo sido assistido por um grupo de amigos. O caso teve grande repercussão na imprensa e, a partir de então, a questão da eutanásia passou a ser debatida mundialmente. Em 2003 a história foi levada para o cinema com o filme “Mar Adentro”, do diretor chileno-espanhol Alejandro Amenábar. No elenco figuram atores como Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas e Mabel Rivera. 

Fazer download do Filme: Megaupload
ou acesse o site Kantuta Filmes e Downloads 

Àstrid Bergès-Frisbey



A atriz hispano-francesa Àstrid Berès-Frisbey, 25, em cena do filme Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (2011) do diretor Rob Marshall.

Nyambinghi News

Edson Gomes
O celebrado cantor, compositor, poeta e profeta rastafári Edson Gomes, 55, é com certeza uma das maiores referências da música reggae brasileira. Sua música transcende os modismos que tão tristemente ofuscam a riqueza musical de nossa terra. Desde muito cedo o reggaeman baiano cultivou a rara qualidade de artista genuinamente preocupado com a situação do Brasil e do mundo, indo muito além da demagogia que tipifica o discurso de muita gente por aí. Assim, ciente de seu papel enquanto artista e cidadão, o cantor vislumbra no reggae um espaço importante para realização de uma leitura crítica e objetiva da história, da política, da sociedade e dos fenômenos inerentes ao mundo moderno. Sua música, além de celebrar a temática Rastafary, traz ainda temas recorrentes como a situação agrária, ambiental, a violência urbana e a discriminação racial. Natural de Cachoeira, importante cidade do recôncavo baiano, Edson Gomes tem construído uma sólida carreira como produtor e divulgador da música reggae. Hits como Revelação, Campo de Batalha, Criminalidade, Malandrinha  e Samarina são alguns dos muitos sucessos que notabilizaram a trajetória do cantor.

Discografia: Reggae Resistência (1988), Recôncavo (1990), Campo de Batalha (1992), Resgate Fatal (1995), Meus Momentos (1997), Apocalipse (1999), Série Bis (2000), Acorde, Levante e Lute (2001) e Ao Vivo Em Salvador (2006).


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Xique-Xique de Igatu (Chapada Diamantina)

Fotografia de Rodrigo Maia Nogueira
A bela, exótica e sagrada Xique-Xique de Igatu, localizada na Serra do Sincorá, município de Andaraí, Bahia, foi descoberta por volta de 1840 e viveu dias de explendor no período áureo da exploração diamantífera na Chapada Diamantina. A charmosa cidade de pedra é considerada a Machu Picchu brasileira. 

Fotografia de Tiãzinho

"Precisa-se"


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.

P.S.: Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
Clarice Lispector  

quinta-feira, 2 de junho de 2011



Erguia-se para uma nova manhã, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na água.
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.
Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain


Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain
 "De repente, todos os solitários percebem-se órfãos no mundo. A mãe dos mal-amados morrera antes..."
- Amélie Poulain - 

sábado, 28 de maio de 2011

Pinte Sua Aldeia...


Pintura a óleo retirada de www.toucanart.com
Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.

- Liev Tolstói -

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Meus Planos...


Sob o mármore gelado
da sagrada colina
repousa solenemente minha velhice.
Meu futuro maior já se realizou
por ocasião de meu nascimento.
Hoje só quero saber da vida,
esta que me pede para ser poeta,
artista da noite, ser mundo.
Não quero notícias do câmbio,
nem do arrocho fiscal anunciado,
tampouco da nova miss universo.
Quero apenas subir a escada dos dias
e curtir a planície das noites com
sua brisa, seus botequins e gargalhadas.
Sob a poeira assentada
nas paredes do tempo
repousa terrivelmente Dorian Gray.
Sua beleza brindou com
os anjos da luxúria mortal.
Dele nada restou, apenas
o retrato maldito para memória
de sua infame decadência.
Não à vaidade da fama,
nem à preguiça da cama,
nem ao batom fatal da dama.
Quero o sorriso da ribeirinha
que lava roupas nas águas do
São Francisco. Quero só seu olhar.

Antônio Carlos Kantuta

Ian Anderson


Ian Scott Anderson, flautista britânico e líder da banda Jethro Tull

Lazy Days...


Galinha d'Angola

Naila - Lila Downs


quarta-feira, 25 de maio de 2011

Futuro, Silêncio, Nada...








Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.


Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.


Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe no que ainda não existe.


As Três Palavras Mais Estranhas, Wislawa Szymborska.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Canção do Ver...



Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.

Do livro Poemas Rupestres, Manoel de Barros, 2004.